Apesar de poderem contar com facilidades que não existiam nos tempos das avós, como as fraldas descartáveis, nem todas as mães contemporâneas têm uma vida leve e tranquila. Pressões e cobranças sociais, cada vez mais complexas, têm gerado novas culpas. Veja as dicas de especialistas para se livrar delas e exercer a maternidade com tudo aquilo a que você tem direito – paz, confiança, alegria e autonomia.

1 – Não seguir à risca as dicas dos blogs sobre maternidade

Hoje há muitas fontes de informação sobre a criação de filhos. O problema é que algumas delas não levam em consideração a particularidade de cada mulher e família. “Informação é fundamental. Hoje somos mães mais conscientes, com melhor noção do desenvolvimento físico e emocional de nossos filhos. Porém, tenho a impressão de que muitas mulheres perderam a intuição, o instinto materno e se guiam, exclusivamente, pelo que é dito, seja por blogs, livros ou pela opinião dos outros”, afirma a psicóloga Cecilia Russo Troiano, autora do livro “Vida de Equilibrista – Dores e Delícias da Mãe que Trabalha” (Editora Cultrix). O resultado é que as mulheres vêm sendo mais patrulhadas e menos espontâneas, além de terem de conviver com a amarga sensação de culpa de não pertencimento a um grupo. “É necessário consumir a informação de maneira mais crítica e de acordo com os próprios valores pessoais.

2 – Não dar bom exemplo

Por mais que uma mãe se policie, às vezes, acaba soltando um palavrão no trânsito, deixando os sapatos na sala, esquecendo a toalha molhada em cima da cama… Ou seja, tudo aquilo que exige que os filhos não façam. Em vez de se remoer com o peso do mau exemplo, deixe claro à criança que foi um ato isolado. “Ela vai entender que todos podemos falhar eventualmente. Apenas fique de olho para que essas atitudes não se tornem algo constante. Afinal, não adianta ficar dando sermão e fazer o oposto do que prega”, afirma a psicóloga clínica e psicoterapeuta Triana Portal, de São Paulo. Lembre-se que você é a pessoa principal na vida da criança, e ela está de olho em você o tempo todo.

3 – Deixar a criança ver desenho enquanto dorme mais um pouco

Mães, principalmente de filhos pequenos, vivem à beira da exaustão, em especial aquelas que trabalham fora. Então, nada mais justificável do que querer descansar um pouco mais. Isso não significa que está negligenciando os cuidados com o filho. “A culpa que vem disso é porque ainda temos arraigada a ideia de que a mãe deve se sacrificar pelos filhos e atender a todas e quaisquer necessidades deles imediatamente. Não é bem assim”, declara Rejane Sbrissa, psicóloga de São Paulo. Deixar a criança assistindo a um desenho que ela goste por um tempo não tem nada demais. Coloque-a ao seu lado na cama ou no sofá e relaxe, isso não fará de você melhor ou pior mãe.

4 – Liberar joguinhos no celular ou no iPad para comer em paz

Se a criança já foi alimentada e cuidada, por que não? São apenas alguns minutos e toda mãe precisa se cuidar também. Às vezes, em um restaurante, apelar para esse tipo de recurso permite que os pais possam conversar sem serem interrompidos. “Não é porque você se tornou mãe que não tem mais o direito às suas necessidades e a alguns momentos de tranquilidade”, fala a psicóloga Rejane Sbrissa, de São Paulo. A dica é usar bom senso e não fazer da estratégia um hábito, obviamente.

5 – Sentir saudade do trabalho durante a licença-maternidade

Por mais que o papel de mãe traga alegrias e realizações, os cuidados com o recém-nascido são extremamente cansativos. “Muitas mulheres se sentem bem ao voltarem ao trabalho, aliviadas por saírem da rotina de dona de casa e mãe, mas carregam uma culpa enorme por isso”, diz Raquel Fernandes Marques, psicóloga da Clínica Anime, de São Paulo. A razão é que relacionam o desejo de voltar ao trabalho ao abandono do filho e até mesmo à falta de amor, o que nem de longe é verdade. O fato é que várias mulheres gostam da realização que uma carreira proporciona e precisam de tempo para se adaptar à nova realidade – e não há nada de errado nisso.

6 – Virar dona de casa e invejar as amigas que trabalham

É normal sentir saudade dos desafios profissionais, do almoço com as colegas de trabalho e mesmo de se arrumar de manhã para sair. “Toda escolha acarreta perdas e ganhos. Ao satisfazer uma parte de si mesma, que no caso é cuidar do filho o dia todo, a mulher acaba deixando outra insatisfeita. O importante é sentir segurança naquilo que quer para não sentir culpa e não acabar cobrando do filho aquilo que cobra de si mesma”, diz o psiquiatra Rubens Hirsel Bergel, presidente do Comitê Multidisciplinar de Psicologia Médica da APM (Associação Paulista de Medicina). Avalie se a inveja das amigas não passa de uma certa saudade de trabalhar fora e encare sua escolha não como algo definitivo, mas como uma fase. E, opção feita, nada de ficar comparando prós e contras, pois isso só dá margem para alimentar incertezas.

7 – Achar que o filho sofre quando está longe de você

Segundo a psicóloga Cecilia Russo Troiano, de São Paulo, filhos não precisam de uma mãe que fique 24 horas ao lado deles. “Eles precisam, sim, ter a segurança de que a mãe vai e volta, mas isso não quer dizer estar sempre disponível.” O vínculo afetivo com a criança é importante, óbvio, mas também é fundamental que ela tenha a oportunidade de se relacionar com outras pessoas. “A dedicação exclusiva aos filhos não é a única forma de ser boa mãe, o mais importante é encontrar maneiras de estar disponível, fazendo-se presente na vida da criança”, diz a psicóloga Raquel Fernandes Marques. Muitas mães que ficam em casa com as crianças nem sempre estão próximas de verdade, pois passam o dia envolvidas com outros afazeres ou com a cabeça em outro lugar.

8 – Não proporcionar um aniversário badalado

Em tempos de bufês que oferecem megaproduções, não propiciar uma festa de arromba para a criança pode gerar em algumas mães a sensação de que não fazem o melhor possível nem se esforçam o bastante pelo filho. “É uma culpa muito comum hoje em dia, pois as crianças têm bastante acesso à informação e aos modismos e expressam o desejo de imitar o que acontece com os amigos”, diz a psicóloga Rejane Sbrissa, de São Paulo. Porém, com uma boa conversa e com carinho tudo se resolve. Envolvê-la nos preparativos da festinha em casa, por mais simples que seja, pode render lembranças bonitas para o resto da vida. O que é importante para seu filho é se sentir querido – e a impressão de que um bufê badalado pode preencher essa vontade tem muito mais a ver com suas ideias do que com a real necessidade da criança.

9 – Esquecer algo que a escola pediu e se sentir a pior mãe do mundo

Mesmo que você tenha anotado na agenda ou colocado um lembrete no celular, as demandas do dia a dia exigem tanto que, em muitos casos, a solicitação de um determinado material ou alguma ocasião especial da escola (como uma festa à fantasia) passam batidas. “Se der para consertar, dê um jeito de entregar o que esqueceu, mesmo que a data certa já tenha passado. Aproveite o ocorrido para mostrar a seu filho que ninguém é perfeito”, afirma a psicóloga Rejane Sbrissa, de São Paulo. Se não houver jeito, explique que esqueceu, peça desculpas e mostre que, mesmo tentando fazer o melhor, uma mãe pode errar. “Assim quando a criança errar não se sentirá tão mal. Se, ao contrário, você demonstrar culpa, ela aprenderá que deve também ser perfeita sempre, o que não é verdade”, diz Rejane.

10 – Achar que o filho está perdendo oportunidades

Tem se tornado comum a ideia de que é preciso um investimento financeiro alto, e precoce, para que a criança seja bem-sucedida no futuro. E dá-lhe a pressão, de todos os lados, para oferecer uma vida incrível e promissora ao filho: escolas bilíngues, atividades esportivas desde o berçário, intercâmbios, viagens à Disney etc. Só que nem todo mundo tem condições para bancar tudo isso. O resultado é uma culpa avassaladora, que nenhuma pessoa deveria sentir, principalmente, porque isso, sim, pode atrapalhar o futuro do filho. “As mães acham que os filhos estão perdendo certas oportunidades, mas, na verdade, as crianças são felizes e não sofrem nem um pouco por causa disso. Pense que você está dando o que que pode, e com muito amor, e isso importa bastante. Não ter condição de proporcionar certas coisas não significa não dar nenhuma”, fala Rejane Sbrissa, psicóloga de São Paulo.

11 – Permitir algo que a criança pede para parar com a birra

Pode ser comer um sorvete antes do jantar, colocar uma roupa que você não escolheu, assistir desenho fora de hora… Não importa. Em algumas ocasiões – cansaço, dor de cabeça, após um dia extenuante ou por falta de paciência circunstancial – ceder à pressão é a solução mais viável para não surtar. Tudo bem, sem drama. Só não faça disso uma constante, pois as crianças são espertas e vão aprender a acertar seu ponto fraco. No caso da comida, a psicóloga clínica e psicoterapeuta Triana Portal, de São Paulo, diz que muitas mães se sentem péssimas ao ceder a alguns apelos por bobagens. “Tente buscar o equilíbrio, porque privar, completamente, as crianças de guloseimas ou fast food também não é saudável. Se houve excesso ou falta de alimentos saudáveis no sábado e no domingo, por conta de festinhas e passeios, compense durante a semana”.

12 – Não ter paciência para brincar às vezes

Não é sempre que a mãe tem ânimo, tempo e cabeça livre de preocupações mais sérias. “Se você brinca quando pode, dá atenção e é carinhosa normalmente, a criança entenderá que, naquele momento, você tem algum problema ou indisposição. E não vai sofrer por isso, pois pode brincar sozinha ou fazer outra atividade sem sua participação. Só de saber que você está por perto, ela se sentirá bem”, afirma a psicóloga Rejane Sbrissa, de São Paulo, que completa que o mais importante é a segurança emocional que passamos no dia a dia, na convivência, e não em fatos isolados.

 


* Matéria publicada em portal de notícias como “UOL – Canal Universa”, com minha colaboração profissional. Clique no link pra ser redirecionado à publicação original: UOL – Canal Universa.